ARTIGO: DOENÇA DE CHAGAS NO SÉCULO XXI: ONDE ESTAMOS? UMA PAUSA PARA REFLEXÃO

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Por Wilson de Oliveira Jr. 

 

No início do século XX, o Brasil sofria forte impacto político-social com importantes mudanças econômicas por meio de abertura dos portos, ampliação agrícola, início das indústrias, universalização da educação e abolição da escravatura. A interiorização brasileira do homem europeu aconteceu nas margens ribeirinhas, às custas do ciclo do ouro, da escravatura e do extrativismo agrícola. Objetivando o comércio externo, estimulou-se o processo migratório do homem rural para centros urbanos na busca de melhores condições de trabalho.  Esse processo foi determinante também na expansão do agente responsável pela disseminação do Trypanosoma cruzi generalizando focos de “barbeiros” no País. Essa disseminação sempre esteve relacionada com a tríade: precariedade de moradia, ausência de condições sanitárias e pobreza.

 

Descoberta em 1909 por Carlos Chagas, a doença de Chagas humana continua revelando ricos aspectos de sua estrutura científica, política e humana. Embora Carlos Chagas já tenha apontado a necessidade de controle profilático da enfermidade por tratar-se de importante problema de saúde pública, somente em 1960 ações de controle foram iniciadas efetivamente. A realização dos primeiros inquéritos nacionais, sorológicos e de triatomínico nos anos 1975 a 1980 e 1980 a 1983 (no período de 1975 a 1983) respectivamente, promovida pelo Programa Integrado de Pesquisa em Doença de Chagas Endêmicas (PIDE) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A transmissão dessa enfermidade pode ocorrer por via vetorial, transfusional, transparentaria, oral, acidental ou por transplante de órgãos.

Com o êxodo rural –  iniciado em 1940 e intensificado no período de 1960 a 1980 –  e as condições de absoluta pobreza encontradas pelos retirantes nas grandes cidades, na disseminação da doença, surgiu um novo problema de transmissão através de transfusão de sangue.  A via transfusional passou a ocupar importante papel, especialmente considerando que, em períodos anteriores à década de 80, a doação de sangue no País era realizada sob forma de comércio, prática esta banida a partir da criação do Programa Nacional de Sangue e Hemoderivados, com mecanismos de fiscalização e vigilância da Hemoterapia nacional e implantação da Hemorrede Pública.

Apesar das conquistas no controle da doença de Chagas, quer por meio de ações sobre a propagação vetorial, quer no controle transfusional, estima-se que, a cada ano no Brasil, cerca de 6.000 pacientes faleçam por causas relacionadas à doença. A presença de 3,5 milhões de pacientes crônicos remanescentes, dos quais 20% a 30% apresentam comprometimento cardíaco – muitos deles com evolução grave – reforça a necessidade de alerta das autoridades sanitárias sobre a criação permanente de meios de controle da doença. Do ponto de vista epidemiológico, as formas clínicas determinadas são as que causam maior impacto médico-social, particularmente a cardiopatia chagásica crônica, ceifadora de vidas, perda de produtividade, absenteísmo, impedimento de trabalho e altos custos previdenciários.

 

Como se sabe, o paciente com doença de Chagas pertence a um segmento populacional

de baixíssima estratificação social, o que lhe confere pouco poder de reivindicação, excluído, portanto, pela fatídica conjunção de pobreza e enfermidade, o que não ocorre com portadores de outras doenças, como a AIDS e a Hepatite C, os quais têm conseguido, por meio do seu poder de mobilização, prioridade em medidas de atenção por parte do Poder Público. Atualmente o Governo garante apenas o fornecimento de medicação para tratamento de paratisida. O tratamento específico com benzonidazol – único parasiticida no mercado há mais de 30  (?) anos e de baixo custo – consegue curar 30% a 80%dos casos de aguda, incluindo os congênitos.( ?)

Outro fato frequentemente observado é que a enfermidade não confere status àqueles que dela se ocupam, desestimulando o envolvimento de mais profissionais, sobretudo no âmbito da Cardiologia. Esta constatação revela-se na progressiva perda de prioridade do tema em eventos científicos e se alia ao desinteresse da indústria farmacêutica, quer no desenvolvimento de novos fármacos capazes de intervir eficazmente no curso da doença, quer no apoio ao estudo e à pesquisa.

 

Com a migração rural-urbana, a doença de Chagas passou a surgir com mais frequência nos serviços urbanos de saúde. Em 1987, foi implantado o Ambulatório de Doença de Chagas ligado ao Grupo de Miocardiopatias e Insuficiência Cardíaca do Hospital Universitário Oswaldo Cruz-HUOC, com a proposta de dar apoio integral aos portadores da doença traduzida em ações não apenas de tratamento, mas também de cuidado com um enfoque biopsicossocial. Embora a prioridade do Serviço seja atuar na área assistencial, devido à grande demanda existente, o ensino e a pesquisa também têm permeado suas ações por meio da participação em ensaios multicêntricos, encontros científicos, produção de teses, artigos em periódicos e livros.

 

Desde sua implantação, o Ambulatório sempre desenvolveu suas atividades graças à adesão de equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, psicólogo, nutricionista, dentre outros, os quais, por meio do seu trabalho mais que profissional, com grande parceria de abnegação e doação procuram dar atenção integral aos 1.500 (ou 1.850?)  pacientes acompanhados. Além dos exames necessários ao tratamento, o Serviço lhes oferece acesso a interconsultas, atendimento emergencial e internamento nas intercorrências. Orientação para situações especiais, tais como gestação, cirurgias, prática de exercícios e conscientização para a não doação de sangue ou de órgão são enfatizadas.

 

Ainda em 1987, sob incentivo do modelo de assistência integral, foi criada a Associação de Portadores de Doença de Chagas de Pernambuco-APDCIM com o lema “Um Compromisso com a Vida”. Trata-se de uma Entidade sem fins lucrativos, sem vinculação político-partidária, cuja diretoria é composta por pacientes eleitos em Assembleia e tem como objetivo realizar ações com a participação de voluntariado coadjuvante com o trabalho desenvolvido pelo Ambulatório.

Mesmo com a mudança no cenário nacional, pode-se afirmar que, em pleno século XXI, após mais de 100 anos do seu descobrimento, a doença de Chagas continua como um sério problema de saúde pública. Juntamente com a esquistossomose e a leishmaniose, dentre outras prevalentes em países pobres ou em desenvolvimento, passa a fazer parte do rol de Doenças Negligenciadas (DNIs), chamando atenção das autoridades sanitárias mundiais quanto à necessidade de ações mais amplas de controle intercontinental.

Ressalte-se que a caminhada para o controle definitivo da doença de Chagas não se fará apenas com uma simples partida, mas, sim, por meio de uma árdua e exaustiva, embora fascinante, jornada, com a participação de toda a comunidade e sobretudo por uma decisão política permanente.

Recife, julho de 2018

* Wilson de Oliveira Jr. é professor Adjunto Regente da Disciplina de Cardiologia da Universidade de Pernambuco-UPE e Coordenador do Ambulatório de Doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca de Pernambuco do PROCAPE/UPE