Dia Mundial sem tabaco: Conheça as vidas que deram um basta ao cigarro

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Neste 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco, o slogan da campanha da OMS é: Com o coração não se brinca. Faça a melhor escolha para a sua vida: não fume!

Por: Mayra Rodrigues


“Eu amanheci o dia tonta e com muita falta de ar, pensava que ia morrer, pedi que me socorressem porque não estava nada bem.  No atendimento, o médico me perguntou se eu tinha filhos e se eu gostaria de criá-los. Eu respondi que tinha duas meninas, uma delas inclusive, recém-nascida; e que precisavam muito de mim. Então ele disse que se eu quisesse terminar de criá-las, teria que deixar de fumar”. Foi o que Valéria Lúcia Pires, 47 anos, professora, ouviu 14 anos atrás. Os sintomas de falta de ar, cansaço inexplicável e desconforto no peito são o alerta do infarto e há uma relação entre ele e o fumo. Neste dia 31 de maio de 2018, a Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu o tema “Tabaco e Doença Cardíaca” para celebrar o Dia Mundial Sem Tabaco. A campanha alerta para a ligação entre cigarro e doenças cardiovasculares (DCV), incluindo acidentes vasculares cerebrais, que, combinados são as principais causas de morte do mundo, acometendo 17,7 milhões de pessoas por ano.

Cartaz de divulgação do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e Organização Mundial de Saúde (OMS)

O slogan da campanha é: “Com o coração não se brinca. Faça a melhor escolha para a sua vida: não fume!”. O ato tem o objetivo de alertar a população brasileira quanto aos danos sociais, políticos, econômicos e ambientais causados pelo tabaco, visto que o uso dele é uma das principais causas de infarto, angina e acidente vascular cerebral (AVC). De acordo com a OMS, nesta epidemia global cerca 7 milhões de pessoas morrem anualmente pelo tabagismo, destas 900 mil são vítimas de fumo passivo. Segundo pesquisas se nada for feito, estão previstas mais de 8 milhões de mortes por ano a partir de 2030. Mais de 80% dessas mortes evitáveis atingirão pessoas que vivem em países de baixa e média rendas.

De acordo com o cardiologista do RealCor e diretor do Departamento de Hipertensão da Sociedade Brasileira de Cardiologia – Pernambuco, Marco Antônio Alves, o cigarro tem mais de 2 mil substâncias nocivas ao corpo, dentre elas: a nicotina. “Uma vez no organismo,  agridem inicialmente a membrana que envolve artérias, o endotélio, promovendo inflamações que provocam pequenos coágulos, pequenos trombos, pedaços de gorduras. Os pedaços de gordura, por exemplo, podem fazer com que haja a obstrução de artérias, diminuindo o fluxo de sangue”, explica Alves. “Uma vez diminuído o fluxo, pode-se ocasionar infarto, angina, AVC ou até complicador maior”, enfatiza.

o cigarro causa sérias doenças pulmonares

No pulmão, além de ter o fluxo diminuído,  as substâncias nocivas promovem uma alteração na troca de oxigênio e a longo prazo esse órgão vai sendo ‘deteriorado’. Quando se limita o fluxo de oxigênio, atrapalha-se a respiração e provoca-se a destruição dos alvéolos (estruturas de pequenas dimensões, que estão dentro do pulmão, responsáveis pela troca gasosa – hematose – entre o meio ambiente e o organismo), causa da  doença pulmonar obstrutiva crônica (DPCO), o conhecido enfisema pulmonar. “Além disso, o cigarro agride o sistema respiratório como todo, não somente pelas substâncias, mas também por aumentar a temperatura, o que pode gerar ainda outras doenças, como: câncer de pulmão, faringite, laringite, asma brônquica, bronquite, broncopneumonia, pneumonia. Pode também facilitar o surgimento de infecções como tuberculose e outras de origem respiratórias”, esclarece o cardiologista Marco Antônio.

“O ideal seria que o alerta quanto aos perigos do cigarro levasse as pessoas a cessar o tabagismo de forma preventiva”

João Queiroga, pneumologista do RealCor,


Do ponto de vista pulmonar, o pneumologista do RealCor, João Queiroga, explica que “Não existe nenhum tratamento ideal ou milagroso para cessar o tabagismo. A terapia deve ser individualizada e só o médico vai poder definir a melhor estratégia nesta fase bem difícil.” Ainda de acordo com ele, “a maioria dos pacientes me procuram para parar de fumar quando já apresentam algum problema cardíaco ou respiratório. O ideal seria que o alerta quanto aos perigos do cigarro levasse as pessoas a cessar o tabagismo de forma preventiva, ou seja, parar de fumar antes que algo de mal aconteça”, atenta.

“Sempre que posso eu digo que a única coisa que me arrependo nesta vida, foi de
ter fumado um dia”

A professora Valéria Pires fumava desde dos 16 anos. “Eu aprendi a fumar quando minha mãe pedia para eu comprar cigarro para ela. Quando voltava, também tinha que acender”. Foi o medo de não poder cuidar das filhas, que a vida tomou um outro rumo e a professora pode ensinar a si mesma novos hábitos. “Não fiz uso de medicamentos, nem procurei um profissional, foi o  medo de morrer, de deixar minhas filhas nas mãos dos outros, que me fizeram tomar a iniciativa e seguir firme até hoje”, relata.
Com a perspectiva de seguir um novo estilo de vida, a professora adotou novos hábitos.  “Eu era sedentária, não tinha coragem de fazer nenhuma atividade

Valéria Pires com as filhas Laura Beatriz, 20 anos, e Maria Cecília, 15 anos

física. Hoje eu caminho e faço musculação todos os dias. Tenho outra qualidade de vida”, conta. Quando o assunto são as filhas, Valéria acredita que passou a lição para elas “Laura Beatriz Pires, 20 anos, e Maria Cecília Pires, 15 anos, não suportam o cheiro de cigarros e de bebidas, dou graças a Deus. Sempre que posso eu digo que a única coisa que me arrependo nesta vida, foi de ter fumado um dia”, relata Valéria.

 

“Quando me deparei, já estava operado, havia feito uma angioplastia para colocar stents”

 

Ricardo e José Ferreira, filho e pai que abandoram o cigarro

Em 1958 era chique portar uma carteira de cigarros no bolso e a indústria do fumo investia nisso. Foi naquela época que Ricardo Ferreira, 59 anos, economiário,  nasceu. Aos 15, ele começou a fumar, e daí seguiu por quase 33 anos. “Provavelmente ainda estaria fumando, se não tivesse passado mal e sido levado às pressas para a UTI. Quando me deparei, já estava operado, havia feito uma angioplastia para colocar stents”. A angioplastia é a cirurgia para desobstruir uma artéria. O stent é uma malha de aço muito fina usada para liberar passagem de sangue.  Na família de Ricardo, a primeira cirurgia do tipo foi feita pelo pai dele, José Ferreira, aposentado, 83 anos. Seu José começou a fumar aos 13 anos e ao todo foram 60 anos fumando. Hoje, filho e pai, compartilham a mesma percepção: “fumar é um veneno e que nunca deveríamos ter provado”.

“O medo de pensar em voltar a fumar é maior do que qualquer outra coisa”, Hugo Patriota, 29 anos

Outro que deu um basta no cigarro, foi o ator, cantor e dançarino, Hugo Patriota, 29 anos, que fumava desde os 17 anos. O que motivou a deixar o tabaco foi a carreira no teatro musical. “O uso de cigarro estava me impedindo de fazer os trabalhos com perfeição. Eu fumava há 10 anos. Daí, a solução de deixar esse mau hábito veio de reflexões internas, mas o processo é bastante complicado. Na mente do ex-fumante vai ter aquele momento de ficar pensando no cigarro. A vontade vem para mim de forma aleatória, seja no banho ou escovando os dentes. Mas do mesmo jeito que vem rápido, passa de uma maneira rápida também”, descreve.  “O medo de pensar em voltar a fumar é maior do que qualquer outra coisa. Escutei por 10 anos o ‘pare de fumar’ de todo mundo e não consegui parar. Desde então, considero que cada um tem seu tempo. Acredito que essa é uma conversa consigo mesmo”, diz Patriota.

 

 

CIGARRO, A FUGA DA ROTINA

O cardiologista do RealCor e diretor do Departamento de Hipertensão da Sociedade Brasileira de Cardiologia – Pernambuco, explica a evolução do tratamento para deixar de fumar.

Antigamente, pensava-se que o vício do fumo era uma doença física e química, mas hoje se sabe que o componente psicológico é muito importante, prevalente e preponderante nesse grupo de pessoas que fazem uso de cigarro. “O alívio que você sente ao fumar vem do ato de tirar um tempo para isso e também dos efeitos químicos da nicotina no cérebro. O ponto inicial é que o cigarro estimula a produção da dopamina, substância que dá prazer e acalma”, explica.

Marco Antônio Alves, cardiologista do RealCor e diretor do Departamento de Hipertensão da Sociedade Brasileira de Cardiologia – Pernambuco

Ainda de acordo com o especialista, “as pessoas muitas vezes estão usando o cigarro como uma fuga para stress, ansiedade, corre-corre, aperreios do dia. Então, o primeiro ponto para a gente pensar em fazer o indivíduo parar de fumar, é tratar o lado psicológico, o lado da ansiedade, o lado da depressão, que está por trás de tudo isso”, pontua. O indivíduo precisa mudar o estilo de vida, fazer atividade física regular, uma vez que exercícios também estimulam a produção de dopamina, ocasionando o prazer. “O terceiro ponto do tratamento é desabituar o paciente, ele já está habituado a um ritmo de vida em que o cigarro passa a ser incorporado à rotina. A gente precisa então mudá-la para cessar o uso do cigarro. O quarto ponto, de forma simplória, é fazer o tratamento que pode ser feito por meio de adesivo, chiclete, medicações de primeira linha e de segunda linha. Sobretudo, abordar esse paciente de forma individual, multidisciplinar com o apoio também do pneumologista, psicólogo, nutricionista e educador físico. Fazer um tratamento que tenha o acompanhamento individual e contínuo. A gente só diz que o paciente cessou o tabagismo quando a gente faz com que ele pare de fumar por pelo menos um ano”, finaliza Marco.

Acesse aqui o cartaz da campanha do INCA e da OMS.